«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



¿Qué siente un desierto al saber que parió a la luna?


Weather man by Evgenia Arbugaeva


Nada disto estava previsto, mas desde que decidi vender a encosta das oliveiras para recuperar a passarola do meu pai, sabia que estava em outras mãos que não as minhas, as do indecifrável acaso.
O plano inicial, como já vos contei, era voar até ao Valle de la Luna, no Chile, e, chegando lá, vaguear por uns tempos nas areias negras, procurando a outra face do espelho. Mas movendo-se a Blimunda mais por vontades, do que pelo rumo traçado ao leme, rapidamente me dei conta de que avançava para norte. Confesso que não sou grande perita em aparelhos de orientação, especialmente aqueles que contêm agulhas tremelicantes, mas não há como falhar no reconhecimento dos belos contornos da Galiza. Continuei a subir, os motores a todo o vapor - ainda que funcionem a âmbar ultra-refinado, reforçado com mel de rosmaninho, e o pequeno escape sopre apenas um ligeiro rasto dourado, gosto da expressão. Malaquias, o grande cão preto e meu grande amigo, ficou agradado com a rota, satisfeito com a frescura do tempo, já eu não me atrevo a vestir menos de três camisolas interiores e dois pares de meias-calças de lã.
Esta madrugada, quando as insónias me arrastaram ao convés, na imensidão do manto gelado e escuro, avistei um farol brilhante. Que alegria, fiquei comovida, corri ao posto de comando e tentei a minha primeira aterragem. Cá em baixo, imóvel, esperava-me Vyacheslav Korotki, o Weather man, a quem chamam de "o homem mais solitário do planeta". Não sei qual de nós ficou mais surpreendido.
Por agora, este será o meu deserto. 


[verso/título de Denis Osorio]

[a Evgenia Arbugaeva é incrível. espreitem.]