«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Quando te perguntarem por mim, diz-lhes que morri, que me matei, que me mataram, que foi melhor assim. Diz-lhes que levem tudo e o dividam irmãmente, que paguem apenas o impolido funeral. Que não quero rezas, nem cânticos, nem orações. Que rezar me faz mal, me crucifica por dentro. Maldigo o lamento, tortura, blasfémia, intento. Maldigo o meu ser. Que não quero cremações. Arder, hei-de arder no inferno, se o houver, e apenas quando a santanás aprouver. Diz-lhes, anda, corre, vai, alminha. Vai dizer-lhes que venham, que já tudo é deles. Vai, some-te da minha vista. Anda, deita-te a correr, que a vida é curta e eles hão-de querer saber. Dos herdos, hão-de querer receber o quinhão, maldito mês, maldito chão, maldita eu, pária feita mulher. Não lhes digas que ainda vivo, que choro, nem do frio que me faz tolher. Que o útero é podre, que a fonte secou, jano partiu, juturna ficou. Sentenças inacabadas. Perdão, que lhes peço perdão, mil perdões. Negações. Predestinações. Óreas escaladas. Grita-lhes, se preciso for. Vai-te daqui, some-te. Andor!