«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



balcão de atendimento

Antigamente, recordo com uma certa nostalgia, o medo era físico. Começava no cheiro fétido dos sovacos, um mau hálito alcoolizado, preferível aos que traziam a ementa do almoço consigo num arroto, o suor na fronte que nos enojava. Gritavam sempre e gritavam muito. Tínhamos medo, sim, mas enchíamos o peito de ar, agarrávamos no nosso inglês da selva e saltávamos para a arena. Quase sempre dava certo e eles, que tinham chegado como bestas enraivecidas, partiam como doces cordeiros mansos, balindo alto e agradecendo. Actos de violência pesada, foram raros, mas a tensão nunca desaparecia. Entre tentativas de suborno e murros na mesa, os dias passavam-se.
Agora chegam ainda imberbes, quase filhos que não temos, um inglês de dicionário de academia, uma exactidão interrogativa assustadora. Os sinais de alerta começam a transpirar nas nossas camisas, nas palmas das mãos, somos nós que suamos, encurralados. Estranhamos todos os seus movimentos, sempre lentos, já não esperamos facas, agora esperamos pistolas, granadas, bombas artesanais, chacinas juvenis. Engolimos em seco a mesma pergunta feita três vezes, sentimo-nos num interrogatório provocador, questionamos mentalmente a razão do que antes era óbvio, notamos que tentam ganhar tempo perto de nós, invadem e mantêm-se no nosso espaço sem traços de emoção, sem pressa de sair. Não cheiram, não gritam, não suam, são máquinas, perscrutam.
Nesta transição, da bruteza clara para esta loucura iminente, ninguém nos ensinou como proceder.