«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Tem pressa, mas a calçada é manhosa e não quer parecer uma adolescente ridícula que calça pela primeira vez um par de sapatos de salto alto. Com jeito, percorre o quarteirão e atravessa o jardim. Sente que os olhos anciãos a observam, mas o tempo é curto para estudar fisionomias ou seleccionar personagens de folhetim. Quando passa junto das montras, é o seu corpo que procura, precisa de reconhecer aquela mulher, hoje despida do inverno. Avança depois pela avenida principal e nas passadas longas que dá, já perto da praça, pergunta-se que artista lhe caberá esta semana.
Já apanhou de tudo, letrados, iletrados, salazaristas e comunistas, mudos e tagarelas, gente boa e gente má. A maioria não dá a volta pelo Porto para a deixar na outra ponta de Lisboa, mas se puder meter-se naquele bico de obra dos semáforos, é raro o que prefere seguir a direito. Também já lhe aconteceu aparecer-lhe um que não tinha troco para 20 euros, outro que não sabia onde ficava a rua, que, pobre coitada, já lá mora há mais de cinquenta anos, até aquele que lhe perguntou se precisava de substâncias ilícitas, enquanto lhe piscava o olho pelo retrovisor. Estava calor nesse dia, talvez fosse algum tique, talvez fosse do suor, não teve vontade de esclarecer. Houve um que lhe falou de como enganou a cliente brasileira, atravessando a Vasco da Gama, para regressar pela 25 de Abril, com destino ao Marquês, justificando-se que eles (turistas brasileiros) têm muito dinheiro e se nós lá formos, fazem-nos o mesmo!; outro de como a brasileira, dançarina de boate, há seis meses em Portugal, o enganava. Pôzia logo àndar, à bardajona! Um autêntico universo sociológico dentro de quatro portas - que do serviço da bagageira felizmente não precisava - e uns estofes quase sempre em mau estado. 
Há muito que deixou de se importar verdadeiramente que isto dos taxistas, prefere imaginar que está numa peça de teatro onde há que redobrar a atenção, manter a calma e representar o papel até ao fim, quando, pelo seu pé, abandonar ilesa a viatura. Ser uma simples cliente está fora de questão.
Hoje calhou-lhe um profissional na casa dos 50/60, sempre a puxar a gosma à boca, - só Deus sabe o esforço que fez para manter a queijada de leite no estômago -, e com pé no acelerador à campeão. Não se encostou aos semáforos para fazer correr a coisa, usou o atalho, sem que ela lho tivesse pedido, mas a sua mão esquerda, o caminho todo, não largou a pega da porta. Para quem tinha pressa, - não que ele o soubesse -, não se podia queixar, pensou, enquanto sorria e pagava a corrida, feliz por estar viva. Se lhe apetece experimentar a Uber? Todas as semanas.