«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Ribeira dos Canhões

O meu nome é Carla Sofia e ando na Escola Secundária de Ribeira dos Canhões. Eu e os meus irmãos, que são 2 e são grandes e são mais velhos. Mas eu não sou mesmo de Ribeira dos Canhões, moro em Canaviais, uma aldeia a 15 quilómetros, "entravada na serra", como diz o meu avô Zé. O meu pai é mecânico e bate-chapas e a minha mãe é doméstica, ela diz que isso não é profissão, mas, na escola, os professores dizem que sim e é a palavra que eu escrevo sempre no espacinho das fichas de aluno. Eu e quase todos os meus colegas, menos o Marco, a Sandra e a Filipa. A mãe do Marco trabalha nos Correiros, a mãe da Sandra na Câmara Municipal e a mãe da Filipa tem uma loja de roupa para bebé. A mãe do Pedro Gordo (chamamos-lhe Pedro Gordo, porque é mesmo muito gordo, e ele não se importa, pelo menos é o que ele diz) está desempregada, não sei bem se isso é a mesma coisa que ser doméstica, mas ela está sempre em casa "por causa do fiscal do subsídio e a esfumaçar cigarros", diz o filho.
Vamos para a escola na carreira das 7:40h, e eu, como sou rapariga e a mais nova dos meus irmãos, vou sempre nas primeiras filas, entre os tímidos e as atinadas. Eles preferem ir lá atrás, sempre numa algazarra, metendo-se com as raparigas mais velhas. Acho aquilo um bocado infantil e aborrecido, mas elas parecem gostar, riem-se todas e guincham, enquanto se encolhem, nos seus tops minúsculos e Levi's dos ciganos de cintura descaída, por acaso bem giras, as calças. Às vezes o sr. M., motorista do autocarro, chateia-se e manda-os calar pelo retrovisor. Nessas alturas sinto uma espécie de vergonha pelos meus irmãos, deviam portar-se bem, junto dos adultos.
O sr. M. deve ter mais ou menos a idade do meu pai, o filho mais novo é quase da minha idade, e é simpático, o pai, que o filho parece um troglodita ordinário, sempre calado e a olhar para as pernas das raparigas, quase a babar-se. Mas no outro dia, cheguei mais cedo ao autocarro, gosto de ser das primeiras, escolher o lugar à janela e ficar a ver os outros a chegar, (aprende-se muito sobre as pessoas, vendo a forma como chegam a um local, diz a minha tia Jesus), e ele ficou todo alegre, perguntou-me pelos meus irmãos, se ainda demoravam muito, e disse-me que me queria mostrar uma coisa engraçada, para eu me rir, seria um segredo só nosso. Achei-o estranho, demasiado entusiasmado, como o meu irmão Rui, quando vai para a casa-de-banho, aos sábados de manhã, mas fiquei sem jeito para lhe dizer que só queria ficar a olhar pela janela. Ele foi se chegando a mim, com os olhos a brilhar cada vez mais e começou a chamar-me por Carlinha, coisa que detesto, como se eu fosse uma criancinha da primária. Os meus irmãos nunca mais chegavam e ainda era cedo para os outros aparecerem. Pensava que ele me tinha deixado em paz, quando o vi encaminhar-se para o seu assento e começar a mexer num saco de plástico, onde julguei que ele guardava alguma comida para ir petiscando. Às vezes via-o a comer maçãs, enquanto estava à nossa espera. Respirei de alívio, que cena macabra. Mas não, afinal tirou de lá uma revista, que percebi logo que era como as do meu irmão Rui, que eu tinha espreitado à socapa, quando ele uma vez as guardou debaixo da cama. Aquilo era nojento, muito nojento e deixou-me desconfortável, decidi não voltar a pegar-lhe. A verdade é que lhes voltei a pegar mais algumas vezes, uma atracção estranha, uma curiosidade, mesmo continuando a achar aquilo nojento. Mulheres com muitos pêlos e homens com bigode, todos nus e sempre com cara de bêbedos. Eu não sou nenhuma criança, já vi os carneiros a saltar às ovelhas e os cães às cadelas e sei o que é o sexo, a minha mãe já me explicou para ter muito cuidado com os rapazes, porque já tenho o período desde o ano passado e tenho peito de mulher, grande como o dela, portanto, eu sei muito bem o que é que aquelas mulheres estão a fazer, só não sei porque é que aquilo mexe comigo. As minhas amigas às vezes também vêem as revistas dos irmãos, a Cátia descobriu que o pai as esconde dentro de uma mala de viagem e uma vez até levou uma para a escola para nós vermos. É uma maluca a Cátia. Mas eu nunca lhes perguntei se a elas aquilo também lhes fazia sentir coisas estranhas na barriga. É preciso ter muita coragem para fazer estas perguntas ou ser muito descarada, eu acho. Os rapazes têm sorte, falam de tudo uns com os outros e não se preocupam com nada. 
Então, como estava a escrever logo no início, o sr. M., que não digo o nome para não arranjar problemas à família, tirou uma dessas revistas do saco e sempre com os olhos a brilhar, quase podia jurar que devia ter estado a beber antes de eu chegar, levantou-se do assento e voltou-se para mim a rir. 
- Já tinhas visto uma destas, Carlinha? Queres ver? Isto é giro. Posso ta emprestar... mas não podes contar a ninguém... ouviste, Carlinha bonita, és muito bonita, sabias?...
Eu estava cheia de medo, daquele medo que se sente, mas não se consegue explicar, eu sabia que ele queria fazer alguma coisa comigo que não estava certa, é um pressentimento, como o Frederico que foge, cada vez que o meu pai chega da oficina, mesmo que o meu pai nunca lhe tenha batido, mas o gato foge na mesma. Ele sabe que se o meu pai o chega a apanhar, lhe dá um valente pontapé, porque não gosta de animais em casa. Eu odeio o meu pai nessas alturas, é tão estúpido. O sr. M. começou a tocar com a mão esquerda na braguilha, enquanto me estendia a revista, aberta e dobrada numa página onde a mulher, de joelhos, engolia a pila do homem, com uma cara estranha. Que nojo, eu não queria ver a pila do sr. M., muito menos fazer aquilo com ele. Apetecia-me chorar, mas não queria que ele soubesse que eu estava com medo. Os meus irmãos ensinaram-me a ser forte e a dar pontapés nas bolas dos rapazes que me tentassem apalpar, mas estava paralisada, não me conseguia mexer, nem sequer conseguia falar, não entendia aquilo, achava que se gritasse, iam julgar que eu era doida e a culpa tinha sido minha.