«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



O milagre da amamentação

1. 

Zibelina acabara de parir e tinha leite nas mamas. Quim Tiliano Zibeta, o homem cujo esperma atingiu o supremo, e o único aceitável, propósito para a sua líquida e incómoda existência num rápido encontro com um óvulo da minha mãe – a partir do qual se puderam traduzir também em mim alguns dos fenómenos biológicos que antecedem todo e qualquer lampejo de consciência – observava há já tempo considerável o modo como a sua robusta empregada doméstica refletia no rosto a atmosfera húmida e cansada daquela tarde de primavera. Na verdade, o que o fascinava naquele instante, a ponto de desejar febrilmente ser-lhe dado projetar aquela imagem na eternidade, era a maneira hábil como Zibelina se inclinava sobre o fogão, limpando-o apenas com uma mão, enquanto a outra segurava um dos seus seios, inchados sob a bata, a querer fugir. 
– Estás a segurar porquê? Vai cair? 
– Têm muito leite. Às vezes dói. 


2. 

Fazia nesse instante duas horas que Quim Tiliano levara os dedos ao pescoço pela última vez. Urgia que de novo assegurasse que o contínuo pulsar do coração não cessara ainda, para sempre. Zibelina mordia os lábios na exímia operação de combate à gordura. Quim pediu-lhe – Deixa-me mamar nas tuas tetas. Assim. Zibelina ergueu os olhos para o rosto pensativo do meu pai, cujo olhar nela se fixara, absorto e implorativo. Compreendo o seu desejo irreprimível. Perguntei-me já algumas vezes que milagre se manifesta no corpo feminino, quando nele se forma o alimento que todo o ser humano leva à boca pela primeira vez. Não o sei. 
– A patroa pode aparecer. 
E enquanto repetia isto, Zibelina puxava violenta a camisola para cima, e baixava o sutiã mostrando um seio ao seu patrão. Sentada na mesa, a boca dele apoderou-se do tempo que restava a Zibelina para o pensamento de que o permitia não por medo de desobedecer-lhe, mas porque o desejava com ardor.


3. 

Mamava deliciado o meu pai há já alguns minutos, quando de esgar agoniado entrou aquela que seria a minha mãe. Possidónia acabara de regressar do cansativo trabalho numa das maiores empresas do país. Nesse dia, o seu nível de exigência, mais elevado ainda do que o habitual, levara-a a humilhar uma das mais novas funcionárias, que na cegueira da sua aflição irrompera em lágrimas, por toda a tarde trancada na cagadeira. Isso perturbara Possidónia, mas não tanto quanto a visão do seu marido, sugando impávido a mama da empregada. No entanto, apesar de chocada, Possidónia reteve-se ainda por tempo considerável na posição exata em que primeiro os observara. Talvez a tenha denunciado a respiração, talvez o olhar tão incrivelmente fixo – Zibelina e Quim fitaram-na no mesmo indizível instante. Zibelina não se moveu nem ponta de milímetro, embora nos olhos se acendesse um vestígio de terror. Quim Tiliano ergueu despreocupado a cabeça para a esposa e, lambendo os lábios de maneira que ficaram sujos, perguntou-lhe 
– Por que não fazes o mesmo?


4. 


Imagino a minha mãe fazendo o gesto sem palavras, mesmo se não me foi concedido conhecê-la, para além da imaginação e das memórias de outros. Avançou rápida ao encontro do rosto do marido e esbofeteou-o com a firmeza do seu carácter mordaz. Em poucos segundos, Zibelina deu por si junto à porta, no lado exterior à casa, com a mala aberta nas mãos e a bata vestida, enquanto Possidónia gritava ao marido que só voltasse no dia seguinte, não fosse fugir-lhe da mão a faca com que era costume abrir-se os frangos caseiros.


[Maria O., A Violação das Mulas, Eucleia Editora, 2010, pág. 9/10]