«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



O estranho caso do livro que lia o leitor: Capítulo IV

[Capítulo I: Palmier Encoberto]
[Capítulo II: Xilre]
[Capítulo III: M D Roque] 

Continua a segurar o monóculo, incrédulo, quando a voz arrastada da tia, no quarto ao lado, lhe pergunta, Está tudo bem, Luisinho? Luisinho anda perto dos quarenta e divide casa com a tia em Moscavide. Trabalha num escritório de contabilidade, mas do que sempre gostou foi de ser leitor. As noites passa-as ele agarrado aos livros, vivendo as aventuras que tantos mestres guardaram em páginas só para si. Está sim, tia, foi só um livro que caiu, responde. O coração ainda bate a mil, na parede do quarto, talvez de algum carro que passa na rotunda, a mancha de luz assemelha-se a uma caveira e Luisinho assusta-se outra vez, mas o livro não lhe volta a cair das mãos. Lembra-se de alguns exercícios de respiração que aprendeu quando se lhe meteu na ideia aquilo lá do Yoga, que durou pouco tempo, o suficiente para perceber que a Regina do escritório afinal tinha namorado, um matulão que às vezes a esperava à porta do ginásio. Mais calmo, atreve-se a abrir novamente o livro. Na sala vazia, entrava agora um frio gélido de inverno. Os vidros partidos tinham desaparecido do chão, talvez o homem os tivesse varrido. Treme-lhe o dedo, ao mudar de página, mas não resiste à curiosidade. O homem, sentado numa poltrona verde musgo, tachada a dourado, chora copiosamente, tapando a cara com o seu lenço de algodão egípcio. Na mão direita, Luisinho reconhece-lhe o papel que vinha amarrado ao tijolo. Sem que o homem se aperceba, uma sombra aproxima-se, vinda do longo corredor. Luisinho sente um calafrio, não sabe o que fazer, gritar está fora de questão, não quer acordar a tia novamente. De repente, da rotunda, chega-lhe a travagem a fundo de um camião, seguida de uma buzinadela interminável, e Luisinho desvia o olhar à janela. Quando volta ao livro, o homem tinha desaparecido.