«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Les Amants

A paixão amorosa romântica não é «platónica», pois contempla, com todas as suas consequências, o prazer e a sensualidade. O amor «platónico» é totalmente antitrágico, porque renuncia ao prazer para evitar a dor; o amor romântico, pelo contrário, assume um e outro como irmãos inseparáveis. O primeiro recusa a consumação amorosa; o segundo, não. O que ocorre é que o enamorado romântico reconhece nesta consumação o ponto de inflexão a partir do qual a paixão se torna despojamento e exterminação. Não restam duvidas de que, do ponto de vista da autopiedade, renunciar à consumação amorosa é uma boa maneira de desconhecer a dor, mas tal situação é totalmente imprópria à tragicidade do pensamento romântico. É certo que o instante imediatamente anterior à posse é o estado em que, em maior grau, o gozo se impõe ao sofrimento e o Infinito ao Deserto; Keats, entre outros, afirma-o explicitamente. Mas este estado, em que já quase «parece maravilhoso morrer», não existiria se não fosse seguido por outro, no qual o início do despojamento renova a assediante presença da morte. O consumar, ponto mais elevado da acção amorosa, mostra a caducidade de toda a acção.

[Rafael Argullol, O Herói e o Único, Vega Universidade, 2009]