«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Há-de ter mais algum préstimo a vida, que não seja só cá vir para parir. A frase, do avô Beto, escandalizava sempre a avó Minda, que se encarregava de desfiar todas as provações de uma mulher para parir, que se fosse aos homens, morriam primeiro de medo, que a mulher é que era o bicho valente. Poupava aos meus ouvidos de menina, as partes mais ensanguentadas, mas das dores agrilhoadas no ventre, ia até à minúcia. Eu, ainda sem regras, parecia já sentir a torcidela no ventre, culpa de alguma tripa mais sensível, e ficava sentada, muito quietinha, pedindo a Deus que não me desse filhos, porque aquilo havia de doer. Enquanto a avó falava, sempre a mesma cantilena, o avô encolhia os ombros e ria-se para mim, não ligues à tua avó.
Quando a adolescência chegou, trouxe-me uma rebeldia manhosa, sempre inconformada, como se as injustiças do mundo as tivesse descoberto eu, mas só mais tarde comecei a dar sentido às palavras do avô Beto. Nunca me falou em casamento, nem pediu bisnetos, mas fez-me prometer várias vezes que iria ter uma profissão, que tinha boa cabeça e podia chegar longe. Sempre me tratou com extremada ternura, mas nas conversas preferia falar-me como falava aos rapazes, das terras e do lagar, das árvores e das enxertias, do Porto, de África e de Berlim, dos pistões do motor, das ninhadas dos gatos, da bicicleta que me queria dar (e deu). Costumávamos ouvir as notícias no rádio, ao anoitecer, sentados nos bancos do pátio, que ele próprio construiu e ainda lá estão, à sombra da nogueira gigante. 
Hoje, romanticamente talvez, reconheço no meu avô Beto o início da minha emancipação.