«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



erva

Sei que passarei o resto da manhã a varrer a erva cortada e agrada-me a ideia. Mantendo o corpo ocupado em movimentos repetitivos e de simples execução, consigo pensar sobre as coisas pequenas, palermices, nada de decisões importantes. É um pensar manso, que não magoa. De como o sol na pele é bom, de como o cheiro da erva cortada é maravilhoso (erva, senhores, da verdadeira, não me venham com as modernices burguesas das relvas xpto...), que o muro está novamente a rachar, que idiota constrói um muro daquela maneira, que a calçada é realmente bonita, mas agradava-me mais com aquela meia-dúzia de malmequeres, nascidos ao centro, onde as rodas não tocam. O rapaz, talvez para exibir a potência que lhe retesa as mangas da camisola, repete que fica tudo feito hoje, só precisa de ir parando, para a máquina arrefecer, que estão ali 700€, assobia. Eu aceno, sim senhor, muito bem, um investimento. A Mimi, quase a deitar a porta abaixo, uiva em desespero (assustador), quer ver o que se passa na rua, mas o rapaz, potente, tem medo de cães. Entro e saio, ora para admirar o corte, que o rapaz, com gente a olhar, trabalha melhor, ora para acalmar a mostrenga teimosa, que insiste em ir cumprimentar o moço. Nem ao sábado me livro dos conflitos. Felizmente o sono, de tão pesado, que o rapaz é madrugador, transforma-me numa estranha personagem, tranquila e de sorriso parvo na cara.