«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



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Acabou-se a mistura e pede-me o rapaz, com modos, se não o posso levar às bombas, que o caminho é longo e o sol queima. Não há problema, digo-lhe eu. É já na vinda que me diz, «viu aquele homem que estava na esplanada, mesmo onde parou? É o meu pai. Finge que não me vê, tem medo que eu lhe peça dinheiro. Eu!, que trabalho desde os doze, quando a minha tia me foi buscar à Casa Pia.» E a sua mãe, perguntei-lhe, tentando livrar-me da confissão inesperada, «abandonou-me quando eu nasci, nem a conheço». Fizemos o resto do caminho calados. Ao homem da esplanada, um velho de barba e cabelos enormes, recordo, não vi o menor movimento, a mais ínfima reacção. De golada em golada, à sombra do toldo vermelho, continuou a beber a cerveja.