«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



A hipócrita e o filósofo

Yongzhi Chu, MONKEY TRAINING FOR A CIRCUS

Costuma-se dizer, nunca discutas com um idiota, porque ele arrasta-te ao nível dele e ganha-te em experiência. Creio que o mesmo se aplicará aos filósofos, mestres nas estratégias de argumentação, excepto naquilo do arrastanço. Não é pois sem receio que escrevo este texto, sabendo de que me arrisco a uma tareia pública.

A derrota dos porcos, do professor José Ricardo Costa, é um texto que mistura alimentação omnívora com espectáculos circenses e tauromaquia. Uma chamada de atenção à nossa hipocrisia. Penso, e logo eu, que detesto circos, zoos, corridas de cães e de cavalos, lutas de galos, orcas a fazer o pino, golfinhos a comer à mão, animais selvagens em cativeiro, nem que banhado a ouro em casas de Hollywood, moscas esborrachadas nas paredes, osgas assassinadas por donas de casa histéricas, lobos, linces e raposas em casacos, jacarés em malas, rabos de coelhos em porta-chaves, mas que caraças, por que razão ainda não consegui abdicar da necessidade básica de comer carne? Necessidade básica, duvidarão os cépticos vegetarianos, Pois, creio que sim, ainda que coma muito pouca, e afinal, não são os peixes também bichinhos? Terei de ficar reduzida às frutas, cereais, hortaliças e leguminosas, para desejar o fim da selvajaria que é a tourada? É que, vendo bem, é diferente de querer salvar o mundo, ou querer ser presidente da república portuguesa. 

Se podemos discutir a produção de carne, as regras em que é feita, a sua massificação, as condições em que os animais são transportados, o seu consumo excessivo? Claro que sim. Diria mais, é urgente! Não só da carne, mas também do leite e dos ovos. Se fechamos os olhos a essa discussão, para que a consciência nos beije quando nos morde? [belíssima citação, uma provocação erótica, quase diria]. Pois com certeza que sim, que estou de acordo com o professor José Ricardo Costa. Podemos minorar o sofrimento, mas - nós, os omnívoros - sabemos que não podemos poupar os animais à morte, porque é nosso desejo comê-los (eu diria necessidade, mas já percebi que tenho alternativas). Não questiono a morte dos animais, chamo-lhe cadeia alimentar, [eles na cadeia, eu a alimentar(me), troçarão os comediantes e eu saberei rir-me de mim também], mas sim o perpetuar do sofrimento/sacrifício de um animal, de cornos embolados e espicaçado antes de entrar na arena ruidosa, não vá estar em vantagem ao toureiro, durante longas horas, para regozijo de grandes e pequenos (que ali não há cá censuras à violência, isso é nos filmes americanos) e manutenção de uma industria que alimenta muitas Ganadarias e Câmaras Municipais.

Para terminar, e porque nutro sincera admiração por pessoas inteligentes, e o professor José Ricardo Costa é uma pessoa muitíssimo inteligente e com sentido de humor, resta-me dizer-lhe, caro Professor, que entendo onde pretende chegar, possivelmente até terá razão, eu hipócrita, me confesso. Talvez tenha chegado a hora de aceitar que apenas a erva nos purifica aos olhos de Deus. Ups, esqueci-me, Deus está morto, certo? Devia ler mais Nietzsche.