«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Vendo-lhe tudo por atacado, um preço especial, tornava o homem na conversa, enquanto coçava a cabeça, segurando a pala da boina, entre o polegar e o indicador. Castiço, pensei, como é que ele fará aquilo?, Já lhe disse que não, para que é que eu quero isso tudo, Sr. Manuel? A minha surpresa é sincera, nunca antes, e já levava dois anos de compras na praça, me tinha proposto tal negociata. Ó menina, faz o que quiser, vende aos amigos, à família, faz o seu próprio lucro, insiste. Faço-lhe um preço especial. Continuo a olhá-lo, não andará longe dos sessenta, veste uma camisa azul, imaculadamente limpa, o que não deixa de me admirar, num lugar onde há sempre terra agarrada às caixas e poças de água no chão, mas na camisa, justa num tronco enxuto, não há uma única nódoa. As calças, de fazenda fina, numa cor que não consigo definir, entre o azulado e o cinzento gasto, têm o corte e o número certo ao corpo. Se me descalçasse, estaríamos ambos na mesma altura, constato, quando me circunda. Não vale a pena, Sr. Manuel, não tenho família por perto e os amigos que se amanhem com as compras deles. Disse-lho a sorrir e ele sorriu-me também. A dentadura perfeita, com um leve tom amarelado, herança de alguns anos de tabaco, pensei. Que me lembre nunca o vi fumar. Vem-me à ideia a minha figura de caixa à cabeça, a caminho de casa, como as mulheres do século passado. Se o problema é a caixa, levo-lha a casa mais tarde, ou deixo-lha no restaurante onde costuma ir. Abro os olhos de espanto, como um desenho animado, o homem conseguia escutar os meus pensamentos?! Credo. Fiquei sem jeito. Ir a minha casa mais tarde, onde queria ele chegar com aquela conversa? Enquanto inquiria vigorosamente a minha mente, sem obter resposta, fingi interesse nos pimentos vermelhos, A quanto é o quilo? e comecei a escolhê-los com cuidado. Leve-me aquela caixinha, menina, e ainda lhe ofereço um quilinho desses pimentos. São lá da horta. O homem não se calava com o raio da caixa e eu começava a perder a paciência que me habita todos os sábados de manhã. Calçava umas sapatilhas, reparei nesse momento. Esperava encontrar-lhe umas botas, algum calçado mais saloio, em vez disso umas sapatilhas pretas com umas pequenas listas laterais em vermelho, de marca. Gosto. Pimpão, o Sr. Manuel das couves. Deixe lá isso, Sr. Manuel, que me lembrei agora que nem trouxe a carteira. Fica para outro dia. Cumprimentos à D. Maria. Fujo-lhe, sem mais explicações. Vá se lá entender o mundo.