«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Um copo de água

Essa tendência para traíres, para mentires - e para seres perfeitamente franca. Para te esconderes - ou para te mostrares muito. Esse cuidado de te preservares tanto - para acabares a contar a tua história, a tua verdade, com todos os pormenores, a um desconhecido. Essa vontade de fugires, de saíres a correr quando alguém mostra que começa a conhecer-te, embora não te reveles, e essa vertigem de ficares. Essa indomável sede de alguém - e de não estares com ninguém. De envolveres as carícias em palavras. Essa vontade de mudares sem renunciar a nada. Essa fome de impossíveis. Como pensar no meio desta confusão contraditória? É verdade e mentira, está bem e está mal, e não há saída.
Nada a fazer. Toma um copo de água.

[Héctor Abad Faciolince, Receitas de Amor para Mulheres Tristes, Editorial Presença, 2000, p. 60]