«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Tu

Tu, que és poeta, (disseste-o à menina do café, ainda esta manhã, não me faças essa cara!), tu, que dizes que és poeta e que o mundo é uma treta, mas preferes escrevê-lo num arroubo de pérfido imoral, tu, que te escondes nos versos modernos, esses onde, arrojadas, as palavras têm cheiro a fodas e a rebuçados de mentol, tu, poeta independente, dono de recibos cor da esperança, com que pagas mensalmente a tua escravidão, tu, poeta exilado, que ainda lavas a roupa na casa da tua mãe e activas pacotes de última geração para sobreviver, que declamas Artaud, que amas Sexton, que comes massa com atum, dia sim, dia não, tu, jovem de barbas, surrealista, (herbertiano, já?), diz-me, possuis em ti a paixão dos suicidas que se matam sem explicação?