«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Se tens ganas para inventar o silêncio?, perguntam-te, Peter Pan moderno, sonho abortado de menino, doçura da tua mãe. Não te cabe decidir os novos estratos sociais, já não crês no deus-menino, sabes-te vagabundo, sem-mundo, sem razão e sem tesão. Não sabem que da poesia procuras o grito, que nenhum movimento social, político-social ou socialmente político te consegue gerar. Com ela respiras, sentes-te vivo, debaixo dessa carapaça friável, enquanto fotocopias as páginas da tua vida. Com ela mandas à merda o mundo, enquanto o mundo te enterra na sua merda, quilómetros de betão e publicidade embalada, pronta a servir. Ejaculas no vazio, roto de mãos, os sonhos em que a tua mãe te embalou, cambaleias, tropeças, ninguém repara, os olhos dos outros habituam-se rapidamente à tua escuridão. A puta da vida num grito de poesia. Hoje é terça-feira, continuas a sorver cigarros.


[Muito obrigada pelo belíssimo texto, Xilre]