«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Que culpa tinha ela da doença da sua mãe? Não é de hoje o ódio amesquinhado entre as duas, nora e sogra nunca se deram, razões, de parte a parte, sempre as houve. Uma que se metia demais, a outra que não era de deixar meter. Ele, acanhado nos modos, chegava mesmo a gaguejar, quando os nervos lhe tomavam a razão. Não as suportava juntas, sempre engalfinhadas com assuntos que não lembravam sequer ao diabo. Decidiu o pobre fugir às pressas para a capital, ficou-se por Odivelas, um T3 jeitosinho. Em Agosto, ia uma semana sozinho, às vezes com o miúdo mais velho, para a aldeia, ajudava a arrancar as batatas, os outros quinze dias passava-os em Armação de Pêra, onde a mulher gostava de se bronzear, Que fazia bem às crianças. No Natal é que a coisa aquecia, eram dois dias sempre a rosnar, cada uma a seu canto. Nessas alturas, pai e filho agarravam-se ao machado e vai de rachar lenha a tarde inteira, em casa é que não ficavam, Que parecem duas cadelas, catano! dissera-lhe o pai uma vez, pouco tempo depois do filho casar.
Não foi com estranheza, por isso, que quando soube da doença da mãe e falou nela à mulher, lhe tenha chegado como resposta o desdém. Quase fechou a mão para lhe bater, em vez disso, levantou-se da mesa e foi até ao Café do Piriscas. Nessa noite embebedou-se, na noite seguinte também. A mãe morreu dois meses depois.