«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Pó, Cinza e Recordações

A partir deste momento o passado vai-se esfumar, as recordações perderão a moldura que as tornava reais, nunca mais poderei apontar onde nos sentámos à mesa, o lugar das camas, o da escrivaninha, o da lareira, os buracos na parede da cozinha onde se espetavam as varas do fumeiro. As imagens que me pertencem surgem confusas, em turbilhão, são as duma vida inteira. Vejo-me defronte da mesma porta, mas noutros momentos e noutras idades, ora feliz, mas também desesperados do mundo e de mim próprio. A chave roda na fechadura com um som diferente e empurro a porta.


[J. Rentes de Carvalho, Pó, Cinza e Recordações, Quetzal, 2015]


as palavras dizem pouco