«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



O Inferno

«Quando somos crianças, o inferno não é mais do que o nome do diabo na boca dos nossos pais. Depois esta noção complica-se e então resolvemo-nos na cama, nas intermináveis noites de adolescência, ao tentar apagar as chamas que nos queimam - as chamas da imaginação! Mais tarde, quando já não nos olhamos ao espelho porque os rostos começam a parecer-se com o do diabo, a noção de inferno resolve-se por um receio intelectual e, para escapar a tanta angústia, desatamos a descrevê-lo. Na velhice, o inferno encontra-se tão ao nosso alcance que o aceitamos como um mal necessário e até deixamos que reparem na nossa ansiedade por sofrê-lo. Mais tarde ainda (e agora, sim, estamos no meio das suas chamas), enquanto ardemos, começamos a vislumbrar que talvez nos possamos aclimatar. Passados mil anos, um diabo pergunta-nos com ar de circunstância se ainda estamos a sofrer. Respondemos-lhe que a parte de rotina é muito maior do que a parte de sofrimento. Por fim, chega o dia em que podemos abandonar o inferno, mas energicamente recusamos tal oferta: quem pode renunciar a um desejado costume?»