«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Levo-lhe uma década de avanço, mas não vejo nisso grande vantagem, quando ela me pergunta o que acho eu daquilo. Aquilo é um amor difícil, sem rumo aparente, que mantém por (com?) um rapaz tão descomprometido quanto ela, mas esquivo como uma enguia do Douro. Ora está semanas sem lhe dizer nada, justificando-se com o trabalho que o cansa demasiado, ora passam noites a trocar mensagens, até os polegares darem de si. Pergunto-me o que tanto terão para mensajar, mas não a interrompo, que agora discorre sobre a última vez que estiveram juntos, ela que queria mais, ele que parecia ausente, e das palavras que ela queria ouvir, passados quase dois anos, ainda nada. Tem algumas teorias, todas seguindo a fantasia de que ele também a ama, mas não quer compromissos "sérios", definição que agora se aplica a qualquer relação que ultrapasse as três noites de cama. Não fosse a amizade sincera que lhe guardo e não estaria a mastigar tantos pois, é capaz, talvez seja. Conversa infrutífera, ambas sabemos, que a mim me aborrece mas a ela alivia. Habituou-se a uma ideia e a ela se mantém fiel. Eu, que lhe levo uma década, diria, refém.