«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



iii

Podemos voltar à casa de granito, aos dois velhos que a habitam, em silêncio, enquanto as ervas  do quintal crescem na liberdade em que todas as ervas deveriam crescer? Quero falar-te de algumas coisas que, numa segunda leitura, me pareceram demasiado opacas. 
Porque não nominalizo eu aqueles corpos enrugados e secos, humanizando-os com um simples nome? Talvez não os conheça assim tão bem, pode ser a razão, mas, se te agrada a ideia, posso inventar-lhes nomes que te permitam um rosto. Serão o Joaquim e a Mulher do Joaquim. Pode ser, ou és daqueles que, agora, iludido pelos ecos pós-modernos, acredita que aquela velha ainda se poderá transformar em mulher de si mesma e deixar de ser a mulher do Joaquim, tarefa que carrega há quase sessenta anos? Não esperes de mim o aceno pacificador de quem sabe a vantagem que leva neste mundo, não estou aqui para fazer juízos, tão pouco para carregar bandeiras de odres sociais. Apenas te quero falar daquela casa, onde, vivos, jazem dois velhos, sozinhos.