«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



ii

Uma casa de pedra, antiga, direi velha, pequena e de um só piso, consegues imaginá-la comigo? Há o cinzento do granito, pedra rude, mas sentimental, que absorve o tempo dos que nela habitam. As gentes cada vez mais enrugadas e a pedra inchando, nas encostas, sob o gelo e a geada. A casa de que te falo tem uma lareira onde uma velha coze as batatas todos os dias e um velho, reumático, conta as horas que passam, agarrado à navalha - se ao menos tivesse jeito, pensa às vezes a velha - que o filho lhe trouxe da Suiça. O filho está morto, um avc há dois anos, quando passava férias no Algarve, com a segunda mulher e os dois filhos. Parece-te inverosímil esta casa? Fica numa aldeia, no lado norte, fazendo fronteira com a corte das vacas de um outro velho que já morreu. Também já não há vacas a mugir manhã cedo, agora compra-se o leite no hipermercado da vila. Cercando a casa, há um terreno infestado de ervas daninhas, que já ninguém cuida, e um pequeno alfobre amarelado, onde as galinhas vêm depenicar. As roseiras deixaram de ser podadas, mas ainda rebentam, no início de cada primavera. Por teimosia, quando o pequeno televisor se avariou de vez, o velho jurou que não comprava outro, que se era para ver trampa, vi-a na rua, a merda dos cães. Disse-o assim mesmo, sem pudores na linguagem. A velha, de feitio quieto, não se queixou, e há muito que os dois velhos têm o silêncio por companhia.