«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Hades

«Encontrei um viajante que regressava do Hades, onde tinha falado com Tântalo e com outras sombras. Todas concordavam que durante os primeiros seis meses, ou talvez doze, o castigo lhes desagradava muito, mas depois era como descascar ervilhas numa quente tarde de Verão. (...) A partir desse momento, em que a acção se tornou automática, o sentido que fazia pensar continuamente noutra coisa era rápido e depressa se esqueciam de estar a sofrer qualquer castigo.
(...)
Sísifo nunca tinha encontrado na vida um prazer comparável ao gozo de ver a pedra rolar pelo barranco abaixo e soltá-la no momento em que pudesse assustar qualquer sombra desprevenida a passear pelo vale. Com esse tão variado divertimento conseguia assim que o seu trabalho se convertesse no automatismo de uma acção reflexa (nome que, segundo entendo, os homens de ciências atribuem a todos os actos que executamos sem pensar). Era um velho cavalheiro pomposo e pesado, muito irritável, que imaginava que as outras sombras estavam sempre a rir-se dele ou a tentar prejudicá-lo. Odiava duas delas com tanta raiva por o atormentarem como nunca o fizera o castigo. A primeira era Arquimedes, que organizava várias experiências ligadas com a mecânica e concebera um plano através do qual esperava utilizar a energia da pedra para iluminar o Hades com electricidade. O outro era Agamenón, que procurava colocar-se fora do alcance da pedra quando estava a meio da encosta, mas que se divertia em enganar Sísifo quando não havia perigo. Muitas outras sombras se reuniam todos os dias à hora da pedra rolar para participarem na brincadeira e apostarem sobre a distância que a pedra alcançaria.
(...)



in [J. L. Borges e Bioy Casares, Livro do Céu e do Inferno, Teorema, 2003, tradução de Serafim Ferreira]