«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



«E é a força sem fim de duas bocas»

Continuei a tentar convencê-lo, tão louca que estava e não queria ver, falei-lhe dos arrepios da espinha, prazeres centrados no osso sacro, um pecado tão doce, uma tão doce vontade de morrer. Recuou, assustado, que eu falava coisas estranhas, desejos incomuns, palavras fora do normal. Na indivisibilidade do magnetismo dourado, que julguei existir, desde aquele primeiro beijo, boca cheia de bolacha, quem nos visse, enfants terribles, papeis rasgados pelo chão, procurei-lhe o sexo molhado, ao que secamente desviou a minha mão. Acabou, pensei, só pode ter acabado. Renuncia-me assim, para não perder o mundo. Vai daí, levantar e vestir, não chorar e sair, foi tudo quanto consegui. Do beijo, já não guarda lembrança, concluí.


[título/verso de Alexandre O'Neill]