«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Dr. Pinel,


Inicio hoje a nossa troca de correspondência, que tão veementemente me pediu, aquando do nosso último encontro, no mês passado. Continuo sem entender com clareza qual será o beneficio deste exercício, pois de momento apenas me surge a ideia de lhe escrever sobre as borboletas amarelas que vivem no Equador. Conhece a história? Talvez a história não exista senão dentro da minha cabeça. Deus é um bando de borboletas amarelas, Dr. Pinel, sei-o de fonte segura.  Fale com o Dr. Lorenz e pergunte-lhe pelo atractor, se não acredita em mim. Mas se não acredita em mim, de que me vale falar consigo? Pensa que me conseguirá convencer a mudar? E vai mudar-me segundo que modelo, Dr. Pinel? Até quando vamos continuar com isto? Fazendo de conta que há cura para a personalidade que vive fora das balizas. Eu penso nas borboletas amarelas e vejo um rasto de pó dourado que vai caindo do céu, quando elas passam. Não abane a cabeça, Dr. Pinel, não pode a divindade estar repartida por um bando de borboletas douradas, porquê? Tenho lido nos velhos livros do meu pai que os índios, habitantes deste mundo muito antes do que nós, acreditavam no mesmo. Há morte e ressurreição nas borboletas, o acto está diante dos nossos olhos, a natureza não o oculta, é a metamorfose. O europeu civilizado continua a olhar para estas crenças como peculiaridades antropológicas, bem sei, mas eu tenho confiança em si, Dr. Pinel, acredito que consiga ver mais além do que um mero europeu civilizado de bata branca. Gasto caneta e papel em vão, é o que julgo, falar-lhe das borboletas amarelas é tão idiota como falar-lhe no salmão ao vapor que fiz para o jantar de ontem. Ambos os assuntos de nada importam, senão a mim. Não fosse a protecção da folha e a esperança de que aos seus olhos as palavras pareçam menos apalermadas e não teria coragem para divagar por caminhos tão tortos. Deve ter sido o estado do caminho que cansou os outros dois, que preferiram ficar à espera. Quando chove, é terrível, com a lama, depois o sol seca a terra e ficam os buracos. Se calhar os caminhos foram feitos para esperar e não há mal nenhum nisso.
Tenho de terminar por aqui. A Lúpia deve ter encontrado algum amiguinho (ou está outra vez a infernizar o gato do vizinho, um enfezado europeu comum, amoroso). Não pára de ladrar ao portão, tenho de ir ver o que se passa. Voltaria para continuar, tentar matéria menos etérea, mas o doutor fez-me prometer que todas as cartas teriam de ser escritas de uma vez só, sem paragens mundanas ou interrupções analíticas. Haverá de me explicar tal pedido na próxima sessão, rogo-lhe, preciso de entender.

Da sua amiga que o estima,

G.