«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Diário da Guerra aos Porcos, Adolfo Bioy Casares

«Um certo dia, de forma inesperada, os jovens de Buenos Aires decidem que quem tem mais de cinquenta anos é inútil à sociedade. Inicia-se, deste modo, uma misteriosa e terrível «guerra aos porcos», na qual, durante uma semana, os jovens da cidade fazem uma caça aos «velhos» com o intuito de os eliminar. 
Isidoro Vidal e o seu grupo de amigos já reformados, que entre si se denominam «os rapazes», são apanhados desprevenidos no meio da violenta revolução geracional. A guerra obriga-os a alterar hábitos e a improvisar uma defesa desesperada. Têm de aprender a deslocar-se pela cidade em horas improváveis e esconder-se dos seus próprios filhos, que agora receiam. Explode uma verdadeira guerra, tão real quanto simbólica, entre dos grupos rivais, mas também contra um inimigo em comum: a inevitável passagem do tempo. No entanto, no meio do terrível conflito, como num moderno Romeu e Julieta, floresce o amor secreto entre o velho Vidal e a jovem Nélida…»



[Se há livros que não se devem levar para a cama, este é um deles. Cheguei ao final do primeiro capítulo gelada. Pouco mais de doze páginas e à minha frente, impávidos, eu e o grupo de velhos, tínhamos acabado de assistir à primeira matança. Não sei se teria sentido a leitura com o mesmo impacto, se a tivesse feito noutra altura da minha vida, mas neste momento, em que assisto diariamente à desumanização - a forma mais cobarde de matar alguém - dos mais velhos, as palavras ferem-me como punhais, não pelo que podiam ser, mas pelo que são. A pobreza em que os cofres cheios decidiram manter a sociedade, pode facilmente criar uma Guerra aos Porcos, onde jovens frustrados direccionam a sua raiva para os mais velhos, a quem sentem que têm de manter as reformas, através do sistema mafioso dos recibos verdes. Nada disto é assim tão simples e os porcos - bem se sabe - são outros, mas a miséria nunca foi boa conselheira e o que tem fome nunca foi grande estratega.]