«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



De médico e de louco todos temos um pouco

Se da loucura do mundo, confesso, tento fugir sempre que posso, a História da Loucura de Foucault tem sido a leitura destes últimos dias. Leio-a sem pressas, às vezes de carreiro, outras, meio em viés, já lá vai o tempo em que me julgava prisioneira do índice completo. Há pouco, enquanto passeava pela ducentésima página, encontrei Boissier de Sauvages, médico e botânico francês do século XVIII, que distingue da seguinte forma o são do louco:
Quando um homem age em conformidade com as luzes da razão sadia, basta atentar para os seus gestos, os seus movimentos, os seus desejos, os seus discursos, os seus raciocínios, para descobrir a ligação que essas acções têm entre si e o fim para o qual tendem.
Não é necessário que ele elabore falsos silogismos para perceber a alucinação ou o delírio que o atingiu; o seu erro e a sua alucinação são facilmente perceptíveis através da discordância que existe entre as suas ações e a conduta dos outros homens.

Seguindo o raciocínio clínico de Boissier, representativo da época e que Foucault adjectiva de apressado e presunçoso, pergunto-me quantos sãos, com personalidade mais vincada, terão sido rotulados de loucos, quantos não calaram a sua discordância, para que não destoassem na massa humana? Atrevo-me até, sob a luz quase psicadélica deste inicio de século em que vivemos, à pergunta da praxe, o que é que se entende(ria) por razão sadia?