«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Custa-me a ladainha de que o país vai mal, não que não vá, mas sempre foi, de nada vale a cantilena senão para aborrecer quem nos ouve. Evito-a, quando me lembro, mas nem sempre lhe vou a tempo. Desde ontem que não me sai da cabeça a historieta. Vêm de longe os pobres desta história e uma história que tenha pobres, vindos de longe, como se num êxodo bíblico, é coisa que merece o pensamento. Como em todas as histórias de pobres, o destino alumia, parco, pela nesga da janela, fazendo surgir aquela gente maior, da que vai aos telejornais. Essa gente que parece ter sempre os braços maiores do que os outros, ordinários cidadãos, contribuintes, e que, a cada eclipse solar, ainda que parcial, se levanta frenética da sua cadeira de couro de vaca sagrada, e, sempre de voz embargada, exclama: Vou salvar pobrezinhos! Menina Sofia, mande preparar o carro, que vou falar com o Presidente. Por esta altura, se os pobrezinhos soubessem já desta luz trémula, que nasce no fundo de um gabinete, nem as feridas das bombas lhe comeriam as esperanças e o arroz branco seria pitéu. Poupo o estimado leitor de adicionais informações, burocráticas como convém à gente grande. Avanço na papelada e chego ao momento exacto em que os pobrezinhos avançam na fila da cantina, rostos em lágrimas, como gente a quem mataram a alma, agradecendo a bondade da gente grande de cá. Eles têm fome, gratos, genuinamente gratos, agradecem as côdeas de pão. Eu, por portas travessas, pergunto à gente da cozinha, Amigos, a gente grande tem verbas para dar uma refeição decente, qual a razão de vergonhosa caridade? Ombros encolhidos, a medo sussurram, aquilo é uma Fundação...