«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Alma partida

De um dos saltos minguados dos sapatos azul-escuros carcomidos da senhora à minha frente a caminho de uma fatia de pizza caseira e mais nada obrigada. Ver-lhe aquela roupa que usa há vinte cinco anos julgando-a eviterna e cheirando-se a naftalina sanilar e os penduricalhos abanando e eu sabendo que a senhora ganha três vezes mais todos os meses sendo expert de qualquer coisa que não faz falta nenhuma a não ser às moscas que copulam nas mesas dos cafés sem medo do coito interrompido por jovens de acne condizente. Vê-la perto da queda quando o salto deu de si e ela agarrada ao corrimão fingindo a ligeireza que nunca teve como bailarina que nunca foi e lá se consegue segurar. Não há necessidade de se aniquilar de tal forma para provar que a ela só o conteúdo importa infame glória vil perdão triste sina. Falta de equilíbrio nunca foi sinónimo de inteligência, não passamos de uma grandessíssima cancaborrada ou de uma merda qualquer, mas que nunca nos falte a vaidade para evitar uma alma partida.