«há música, poesia, força e sentimento na tua prosa»



Da mãe

Procura-me, sorrateira, para que seja sua cúmplice. Enquanto aguarda o embarque, e talvez as últimas notícias do mundo lhe aumentem o nervoso miudinho, liga-me, para me contar da mãe. Fico a saber que a senhora, já perto dos oitenta (abençoada mulher), encontrou um segundo amor. Se para mim a notícia é enternecedora, a ela, incomoda-a bastante, toda aquela situação. Que foi tudo muito depressa, que não acredita no amor à primeira vista como a mãe apregoa, que ficou desiludida com o senhor, que afinal também é velho... 
Esta minha amiga, que conheço há muito, tem um coração generoso, já passou por dois divórcios e várias relações desastrosas, e que me lembre, nunca a mãe não esteve do seu lado, daí que me impressione a sua relutância em aceitar a felicidade da mulher que a criou e sempre a protegeu, que, quer se queira, quer não, se encontra na recta final desta aventura que é a vida. Tento apaziguá-la, para quê complicar o que é simples, e aquele amor é deliciosamente simples, duas almas que se fazem companhia, sem magoar ninguém. Concorda, embora lhe consiga perceber a insistência para que eu a entenda. E eu entendo, digo-lhe precisamente isso, que a entendo, mas digo-lhe também que, nos tempos que ainda correm neste país, é preciso muita coragem para uma mulher daquela idade, numa vila pequena, assumir que voltou a amar e exigir respeito pela decisão. Não digo mais, não quero que a minha amiga se sinta sozinha, a poucos minutos de embarcar, mas, se o momento fosse outro, perguntar-lhe-ia se aquela birra lhe tinha nascido do azedume de ela própria não se sentir amada, se da mágoa de não ser feliz.